O Dia Mundial do Serviço Social foi criado em 1983 por iniciativa da FIAS, uma “simples” federação de associações profissionais na esfera da sociedade civil. O Dia não foi legislado, não emergiu de qualquer organismo público e não foi instituído sob o impulso de qualquer governante. Não tem, por isso, qualquer força de lei, nem foi reificado a priori. Apenas aconteceu, foi decidido por um grupo de pessoas implicadas num processo de afirmação da profissão de Assistente Social, e teve que fazer o seu caminho, conquistar o seu espaço e mobilizar adeptos. Hoje, estará mal informado qualquer profissional da área que não saiba da existência do Dia Mundial do Serviço Social. O que não foi dado a priori, aconteceu a posteriori, com a legitimidade de um percurso trilhado. Atualmente fala-se de Serviço Social na ONU e, um pouco por todo o mundo, nos fóruns profissionais e na imprensa, quando este dia passa.

Se pensarmos bem, a mesma situação acontece com a definição global de Serviço Social, a Agenda Global, o Global Social Work Statement of Ethical Principles (cuja tradução para português será disponibilizada em breve) e… o Código Deontológico para os Assistentes Sociais em Portugal!

Que quer isto dizer? Será que o que não está na letra da lei não tem valor? Será que só aceitamos como válido aquilo que vem emanado por uma autoridade superior?

Tais visões neo-positivistas que só reconhecem o que aparece inscrito na estrutura parecem esquecer que somos, por excelência, profissionais do bottom-up, do “fazer acontecer”, da criação dos espaços intersticiais que fazem emergir o novo, que tornam visível a invisibilidade e que criam espaço público para questões esfumaçadas no domínio do individual e do privado. À legitimação formal, que tem também o seu lugar, contrapõe-se a legitimação substantiva, construída por todos nós, todos os dias, coletivamente.

Sim, é importante celebrar o Dia Mundial, como forma de nos celebrarmos profissionalmente e como forma de trazermos para o espaço do debate público as questões que nos inquietam, sobre nós na nossa condição profissional, sobre os públicos com quem intervimos e sobre a sociedade como um todo – temos que ser nós a sermos os primeiros a colocar na agenda as nossas inquietações e os nossos assuntos. Sim, a celebração do Dia Mundial é também um exercício de agenda setting no domínio político.

Neste ano, o tema que o Dia Mundial celebra passa pela Promoção da Importância das Relações Humanas. Note-se que não se trata de promover as relações humanas, mas de promover a sua importância. Que instigante proposta!

Talvez a provocação seja a de pensarmos que as relações humanas não se promovem – elas estão aí, sem a sua realização não é possível vivermos em sociedade. Então, aquilo que parece ser uma missão interessante para o Serviço Social à escala global é a promoção da importância dessas relações, ou seja, chamar a atenção da sociedade de que é preciso acarinhá-las, construí-las de forma sadia, promovê-las com um sentido ético e político, não as instrumentalizar, não as secundarizar.Haverá tarefa mais nobre para o Serviço Social? Haverá tarefa mais urgente no mundo contemporâneo, vezes demais prefixado de pós – pós-humano, pós-verdade, pós moderno? Haverá, por fim, posicionamento mais subversivo no tempo presente? É que o tema surge precisamente na era da Nova Gestão Pública, das métricas da produção, da accountability, da gestão da qualidade… e nós podemos, de facto, trazer uma mensagem alternativa.

Tanto para fazer, tanto para debater… colegas, vamos a isso?

Maria Inês Amaro

Vice-Presidente da APS