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8 DE MARÇO DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Aida Ferreira
Sócia APSS nº 36
Aida Ferreira Sócia APSS nº 36

(Artigo publicado na Folha Aberta nº5)

Breve história
O dia 8 de março é hoje considerado o Dia da Mulher, mas nem sempre foi esta a data da sua comemoração. A ideia vai surgindo nos Estados Unidos e Europa, a partir de finais do século XIX e início do século XX, ten-do como ponto de parti-da a luta das feministas por melhores condições de trabalho e direito ao voto. Inicialmente comemo-rava-se em fevereiro ou março, consoante o país, tanto na Europa como nos Estados Unidos. Em 1917 é instituído o dia 8 de março, como Dia Internacio-nal da Mulher, pelo Movimento Internacional Socia-lista. A partir de final da década de 20 começa a não ser comemorado com a mesma frequência. São os movimentos feministas da década de 60 que re-cuperam essa data. Também em 1975 a ONU desig-na o 8 de março como o Dia Internacional da Mu-lher. Pretendia-se comemorar as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres independente-mente da sua nacionalidade. Este dia comemorativo é ainda hoje associado a um incêndio da fábrica de têxteis, Triangle Shirtwaist, Nova York, em 25 de março de 1911, onde morreram 123 mulheres e 23 homens. Estas mulheres estavam inscritas na sua maioria, no sindicato International Ladies´Garment Workers´Union que tentava negociar o acordo coleti-vo de trabalho. A empresa Triangle tinha-se recusa-do a assinar esse acordo. As mulheres trabalhavam 14 horas por dia e recebiam entre 6 a 10 dólares por semana.

Serviço Social e o género feminino
O Serviço Social é ainda hoje, e sempre foi uma profissão predominantemente feminina. O acesso aos homens nunca foi vedado, mas, por qualquer razão, que necessitaria de investigação aprofunda-da, não se transformou, como outras profissões também femininas, num maior equilíbrio entre ho-mens e mulheres. Poderemos pensar, para além de outras perspetivas de análise, que a própria desig-nação “Serviço Social” implica a análise da compo-sição do que é um “serviço” e do que é o “social”.
A dimensão de serviço é “algo não material” pode ser “um estado” uma “actividade” ou uma
”sensação”. As necessidades humanas são sa-tisfeitas por “bens” (coisas) e por “serviços”. Estes serviços de resposta a essas necessida-des constituem-se no sector dos serviços, de-signado de terceiro sector, após o declíneo da industrialização. Hoje dá maioritariamente tra-balho a mulheres e também a homens. Vários autores defendem que a experiência e o saber milenar da mulher no cuidar das pessoas per-tencentes à esfera familiar, foram aproveitados pelo capitalismo para determinadas profissões na esfera pública. Estas exigem uma relação interpessoal simpática, atenta e sorridente que conduza ou ao bem estar do outro, ou até à venda das “coisas”, sejam elas quais forem.

A dimensão “social” só emerge nos finais do século XIX e início do século XX com a emer-gência das políticas sociais. O “social” é assim um adjetivo que qualifica o Estado social, o Direito social, a Assistência social (antes era só assistência) a Ação social, o Trabalho soci-al e também o Serviço Social. Hoje a atividade do Serviço Social está perfeitamente articula-da com as políticas sociais em cada Estado-Nação e no caso europeu com o espaço inte-grante dos ainda 28 Estados.
Analisadas estas duas dimensões conclui-se que a dimensão “serviço” terá uma grande in-fluência na avaliação da profissão essencial-mente feminina. Ela significa uma “actividade” profissional que tem implícita a relação cuida-da com as pessoas e com as estruturas sociais a vários níveis. Essa relação capaz de aco-lher, percecionar e motivar o outro para a mu-dança, já está incorporada, segundo vários ci-entistas, no ADN da mulher, conforme se refe-riu acima, sendo assim necessária a aquisição de um conjunto de teorias e técnicas que es-tão sempre presentes nos atos profissionais. Assim sendo, coloca-se a questão da internali-zação do feminino tanto pelas mulheres como pelos homens. Esta perspetiva deveria condu-zir ao estudo deste fenómeno. No entanto, em Portugal são poucos os trabalhos científicos realizados por assistentes sociais, teses de mestrado e doutoramento ligados às questões de género comparativamente a outros temas relacionados com o exercício da profissão.

Também sabemos que a maior parte dos uten-tes dos serviços de Ação Social são mulheres. Este fato estatístico não tem dado origem a pesquisas relacionadas com essa procura fe-minina. Seria de admitir que as e os assisten-tes sociais se interrogassem sobre esse fenó-meno da feminilização da procura de apoio social. Alguns autores respondem a esta interrogação afirmando que são as mulheres que têm de “colocar a comida na mesa”. Voltamos ao início da responsa-bilidade da esfera familiar reservada ainda à mulher!
Terminamos, afirmando que o Serviço Social sendo a profissão de intervenção social mais antiga, com mais de 100 anos, deveria no caso português, dedi-car maior atenção às questões do género feminino como construção social, que necessita nos tempos atuais de uma desconstrução mobilizadora de maior igualdade, a todos os níveis entre os géneros femi-nino e masculino. Trata-se de uma mais valia tanto para homens como para mulheres. A vivência de paridade nas duas esferas, familiar ou esfera som-bra, e a esfera pública serão o caminho a percorrer também com o contributo da profissão de Serviço Social.